Artista - Lê Almeida
Título - I Feel In The Sky
Gravadora - Transfusão Noise Records / IFB Records
Ano - 2024
Formato - LP, vinil simples, azul translúcido
Eu queria encontrar palavras que definissem o que é estar no céu. Independentemente de crença ou orientação religiosa, apenas a sensação livre de se sentir leve o suficiente para estar tão alto quanto o céu. Não encontrei exatamente essas palavras, mas encontrei um universo de pensamentos, notas e percepções sobre como criar e gravar fora de um ambiente violento — algo que influenciou diretamente minha musicalidade e criou novos contornos sociais na minha forma de pensar.
Gravar um álbum às vezes se torna um exercício de paciência. Deixar um som amadurecer na mente, assumir múltiplas formas e tentar dar sentido a tudo isso faz parte da experiência. Passei meses viajando com minha banda ORUÃ, e esse material foi se transformando em gravações que, mais tarde, se organizaram como o esboço de um álbum. Foi durante a turnê de 2022 pelos Estados Unidos que percebi que o único título que eu tinha até então estava diretamente ligado à estrada e ao estado mental onírico que a turnê provocava em mim: I FEEL IN THE SKY.
Alguém comentou certa vez que eu sempre parecia feliz em turnê. Isso correspondia à minha empolgação em tocar todas as noites como músico profissional, mas, além disso, acho que a felicidade de experimentar coisas novas me trouxe uma inspiração que só com o tempo fui percebendo. Sair da minha realidade no Rio de Janeiro foi libertador.
Cresci em um bairro violento. Vivi lá durante grande parte da adolescência, trancado no meu quarto gravando música, soltando pipa no telhado de casa, andando de bicicleta e fugindo de brigas de rua. Em uma dessas brigas, levei uma pedrada no olho e vi (pela primeira vez na vida) meu pai ameaçar alguém de morte. Mesmo sabendo que ele nunca faria isso, ficou claro para mim que vivíamos dentro de uma filosofia explícita de “olho por olho, dente por dente”.
Saí desse bairro em 2018, depois que meu pai morreu. Precisando de alguma forma de escape, fiz longas turnês com o ORUÃ pelo Brasil e deixei o país pela primeira vez, tocando com a banda americana Built to Spill em 2019. Viver na estrada me fez absorver novas formas de entender e expressar arte. Essas novas percepções me fizeram perceber que a música que eu criava me ajudava a escapar da minha realidade, mas carregava, de forma indireta, um tom violento e defensivo. Comecei a sentir necessidade de mudar isso.
I FEEL IN THE SKY foi gravado nos intervalos entre turnês. Eu buscava uma respiração calma e constante para amadurecer essas músicas sem pressão alguma — nem externa, nem interna. Basicamente, queria que as faixas soassem visivelmente diferentes entre si, como se tivessem sido criadas e gravadas em ambientes completamente distintos. Isso aconteceu de forma espontânea, já que eu carregava equipamentos de gravação comigo e aproveitava qualquer oportunidade para registrar ideias ao acaso.
À medida que o conceito do álbum se desenvolvia, percebi que a energia de cada ambiente de gravação influenciava diretamente a formação das músicas. Até 2019, passei muito tempo gravando em um espaço comercial no centro do Rio, conhecido como Escritório — um lugar dedicado à produção e shows, mantido por mim e alguns amigos desde 2013. Ali fiz inúmeras gravações, minhas e de várias bandas. Nesse período adquiri muitas habilidades, mas trabalhava sempre na mesma sala, com um computador antigo e, às vezes, fitas cassete. Depois da minha primeira viagem internacional, adquiri uma mesa portátil, um notebook e um novo software de gravação. Com esse setup, comecei a experimentar na estrada, usando qualquer espaço e instrumento disponível.
No fim do período da pandemia, morei em Búzios com dois amigos, João e Bigú. Já éramos parceiros musicais há muito tempo, mas morar juntos era novidade e permitiu uma troca de conhecimento mais intensa. Inicialmente, o foco da casa era mixar e gravar overdubs para o novo álbum do Built to Spill, mas o espaço acabou se tornando um ambiente colaborativo que resultou no álbum Íngreme, do ORUÃ, além de novos trabalhos solo meus. Alguns esboços de melodias mais serenas surgiram nas manhãs em que eu tocava acordes suaves e gravava em um Tascam 4 pistas.
Em abril de 2016 tive minha primeira experiência em uma residência artística, na capital de São Paulo. Nesse período, comecei a me envolver com pessoas do circuito de improvisação livre fora da residência. Passei a improvisar com Cacá Amaral, Henrique Diaz e Juliana R.. Eram pessoas musicalmente incomuns para mim, mas muito receptivas. Fizemos algumas sessões, e meu campo de possibilidades na guitarra e na composição se expandiu cada vez mais em direção ao free jazz. Cacá Amaral foi uma espécie de mentor nesse processo. Lembro dele me buscando de carro no metrô para irmos até a casa da Archela. Dali saíram gravações incríveis — uma delas entrou no primeiro álbum do ORUÃ, representando um outro tipo de ideia dentro da minha música.
Em outubro de 2023, apresentarei I FEEL IN THE SKY em outra residência artística, em Seaview, inserindo minhas ideias atuais de improvisação em um ambiente totalmente novo, imerso na natureza e próximo ao mar.
As adversidades sociais em que cresci nunca me fizeram sentir um artista. Foi viajar pelo mundo que me deu qualquer sensação de reconhecimento pelo que faço como arte genuína. Isso definiu meu projeto como um passe livre artístico para explorar mundos novos e desconhecidos — sem medo.
Terminei este disco na minha cidade, aqui no meu bairro, depois de uma viagem que durou quatro meses e duas semanas, na qual atravessei mais de dez países com o ORUÃ, entre Estados Unidos e Europa.