loja física aberta de quarta a sábado / 11h-18h
R$250,00
Palilalia Records
Meios de envio
Descrição

Artista - Cyrus Pireh

Título - Thank You, Guitar

Gravadora - Palilalia Records

Ano - 2025

Formato -  LP. vinil simples

 

De modo geral, os shredders são como os lutadores de wrestling profissional da música: operam no campo do drama exagerado, muitas vezes esvaziado de alma — o território dos finger-tappers, dos virtuoses do braço da guitarra e daqueles que encaram a música como uma disputa competitiva. Por isso, o guitarrista consciente costuma evitar esse tipo de abordagem, embora ocasionalmente percorra o braço do instrumento com destreza apenas para lembrar ao ouvinte que, sim, “sabe tocar de verdade”. Para o ouvinte típico de música experimental de cordas, o shred costuma ser algo a ser evitado.

É nesse contexto que surge o novo lançamento de Cyrus Pireh pela Palilalia, Thank You, Guitar, sua mais recente investida no que ele chama de “música de guitarra elétrica transcendental baseada em shred”. (A faixa “If I Can Play Fast Enough It Will Turn into Food and Shelter”, disponível no Bandcamp, é uma longa demonstração do que isso significa). Pireh, autodeclarado anarquista e aparente opositor da ideia de música como esporte, reaproveita as corridas vertiginosas em semicolcheias como uma espécie de ebulição hipnótica, tocada e gravada com pouquíssimos artifícios eletrônicos além de um pedal Digitech DD5 e misteriosas modificações em seu amplificador.

O resultado soa como se Pireh tivesse conectado diretamente um cabo aos ouvidos do ouvinte: um delay digital ricocheteia entre os hemisférios, enquanto os sinais seco e processado de sua guitarra de nove cordas tornam-se praticamente indistinguíveis. Para o artista, esse emaranhado maximalista de técnicas com as duas mãos funciona como um espelho no qual o ouvinte pode perceber inúmeros detalhes dentro de uma tapeçaria sonora e rítmica que se autoexpande rapidamente.

A faixa-título, com suas curvas abruptas que evocam “Hello Music” de Fred Frith, estabelece essa metodologia logo de início. (“What Are We Doing What Could Be Done” explora uma energia semelhante.) Mas longe de se apoiar apenas no virtuosismo, cada faixa segue direções próprias: algumas, como “Free Palestine”, utilizam tape delay para borrar o som em uma atmosfera turva, quase proto-psicodélica; outras exploram longos tempos de feedback, criando linhas em uníssono que lembram os experimentos imersivos de Brian Eno com seu Revox (ainda que menos instáveis em afinação).

O verdadeiro ponto de ruptura do disco, porém, é “Amen Family”, onde tapping e raspagens de corda reinventam o clássico amen break como uma peça eletrificada que mistura freak folk e jungle para guitarra fingerstyle — algo que precisa ser ouvido para ser plenamente compreendido.

No fim das contas, Thank You, Guitar representa um grande avanço na forma como a Palilalia redefine o álbum solo de guitarra. É também uma das propostas mais originais surgidas recentemente para o instrumento, explorando a tensão entre precisão e caos sem se fixar completamente em nenhum dos dois polos, mantendo o ouvinte em constante estado de atenção até o último momento. — Tom Carter