Artista - The Acid Band; New Tutenkhamen; Gypsy Caravan; Echoes Ltd; Oliver & The Black Spirits; The Storm; The Blacks Unlimited; The Green Arrows; Mawonera Superstars; Witch; Baked Beans; The Phaze; Melody & Bybit; Harare Mambo Band; Shaft Form; Sweg Unity; Double Shuffle; Dagger Rock Band; I.T.C. Blues Limited
Título - Roots Rocking Zimbabwe (The Modern Sound of Harare Townships 1975-1980)
Gravadora - Analog Africa
Ano - 2025
Formato - coletânea / LP, vinil duplo
Em 1972, pessoas negras raramente apareciam nos jornais oficiais do país, controlados por brancos, a não ser, talvez, quando eram retratadas como “terroristas” mortos. No entanto, uma apresentação da banda Dr Footswitch levou o The Rhodesia Herald a estampar na primeira página a foto do guitarrista Manu Kambani, acompanhada da frase em letras garrafais: “Jimi Hendrix está morto, mas Manu está vivo”. Com sua habilidade de reproduzir as performances hipnotizantes de Jimi Hendrix, Manu impressionou a todos, e o editor do jornal não resistiu em publicar a matéria. A reação foi imediata: críticas severas de setores conservadores da população branca, acusando o Herald de “rebaixar seus padrões”. Ainda assim, a repercussão transformou Manu em uma figura emblemática de Harare, um dos bairros mais antigos de Salisbury, e inspirou inúmeros jovens a formarem seus próprios grupos musicais. Essas bandas passaram a fundir rock, rumba congolesa, mbaqanga sul-africano, soul e ritmos tradicionais em um movimento musical subterrâneo que moldaria o futuro do som zimbabuano e confrontaria o establishment colonial.
Toda essa agitação começou a chamar a atenção da indústria musical sul-africana, e várias bandas rodesianas — entre elas The Great Sounds, MD Rhythm Success, Afrique 73, The Hitch-Hikers, The Impossibles e O.K. Success — conseguiram contratos pontuais de gravação com a Gallo Records, impulsionadas pela força de suas apresentações ao vivo. Por algum motivo, porém, a gigante sul-africana não capitalizou plenamente esse momento, e o vazio foi preenchido em 1974 pela Teal Record Company, que decidiu fortalecer sua subsidiária na Rodésia. Para comandar o projeto, foi contratado Crispen Matema, baterista prolífico e apaixonado pela música tradicional.
Percorrendo o país a bordo de seu Peugeot 504, Matema caçou talentos desconhecidos, organizou concursos de música ao vivo e reservou um pequeno estúdio no centro de Salisbury. Em menos de um ano, havia registrado bandas extraordinárias como The Baked Beans, Blacks Unlimited, New Tutenkhamen, The Acid Band, Echoes Ltd, Gypsy Caravan, entre muitas outras. Para dar vazão a esse volume de lançamentos, a Teal criou vários novos selos, incluindo Afro Soul, Afro Pop e Shungu.
Determinada a não ficar para trás, a Gallo Records finalmente enviou à Rodésia o lendário produtor de sax e jive West Nkosi para garimpar novos talentos. Uma indicação casual o levou ao Jamaica Inn Hotel, onde conheceu The Green Arrows, liderados pelo carismático Zexie Manatsa. No Natal de 1974, o single “Chipo Chiroorwa” já havia vendido mais de 25 mil cópias, tornando-se o primeiro disco de ouro de uma banda rodesiana. Em novembro de 1975, Nkosi organizou uma nova sessão para The Green Arrows no Film Project Studios, de onde saíram o intenso “Towering Inferno”, homenagem a Paul Newman, e o instrumental de guitarra cristalina “No Delay”, tributo a Steve McQueen.
Em 1976, em meio à intensificação da guerra de libertação, a Teal começou a imortalizar Thomas Mapfumo em fita de ¼ de polegada. Mapfumo havia se unido recentemente ao Blacks Unlimited e ao The Acid Band, iniciando um processo altamente eficaz de modernização de canções tradicionais. Esse estilo revolucionário, profundamente enraizado na cultura shona e conhecido como chimurenga, uniu gerações inteiras sob a bandeira da luta pela libertação. A enorme popularidade de Zexie Manatsa e Thomas Mapfumo acabou atraindo a atenção da PATU (Police Anti-Terrorist Unit), que via com desconfiança as multidões que esses artistas mobilizavam. Como consequência, ambos foram presos e encarcerados.
Apesar das detenções e do crescente controle exercido pelas autoridades rodesianas, a música não se calou. Pelo contrário: a repressão apenas fortaleceu a determinação de artistas zimbabuanos como o enigmático Tineyi Chikupo, que continuou a compor canções carregadas das esperanças e lutas do povo. Quando o Zimbábue conquistou sua independência em 1980, os músicos que haviam arriscado tudo para dar voz à população emergiram como heróis nacionais.
As 25 faixas reunidas neste projeto documentam o nascimento da indústria musical moderna do Zimbábue e a explosão criativa protagonizada pelas bandas das décadas de 1970 e 1980, um período de experimentação intensa, anterior à cristalização dos gêneros. Rock, rumba, soul e grooves tradicionais se chocam e se entrelaçam de forma vibrante nesta coletânea, que inclui também gravações inéditas de Thomas Mapfumo, Oliver Mtukudzi e muitos outros artistas zimbabuanos.