Artista - Conjunto Luna Azul; Maderas Felices
Título - Mex-Funk
Gravadora - Desierto Records
Ano - 2025
Formato - coletânea / compacto 7", vinil simples
Há alguns anos, em uma cidade no sul do México, encontrei vários discos de marimba, incluindo versões interessantes de bandas que às vezes passam despercebidas nas garimpagens por serem classificadas como música regional ou tropical. Nosso interesse pelo desconhecido nos levou a descobrir a música do Conjunto Luna Azul e do Maderas Felices, resgatando duas melodias que fundem ritmos regionais, tropicais e de mambo com o funk. Essas gravações preservam as histórias socioculturais de bandas mexicanas que conseguiram registrar suas experiências musicais em vinil. Essa fusão — que chamamos de Mex Funk, uma onomatopeia entre música popular/tropical e funk mexicano — merece ser resgatada, tocada e dançada.
Durante a viagem pelo sul, reencontrei um velho amigo que havia comprado uma coleção completa de discos variados, incluindo música regional, mas sem dar muita atenção a ela — seu gosto era mais voltado a baladas e música em inglês. Entre vários álbuns de bandas mexicanas e tropicais da região, encontrei duas cópias lacradas do Conjunto Luna Azul. À primeira vista, os dois lados pareciam apresentar música tropical, mas a capa se destacava por mostrar a banda usando roupas de boca de sino. Muitas vezes, esse tipo de detalhe visual não é necessariamente sinal de que a música tem algo de funky. Mesmo com boas capas, as músicas acabam sendo baladas ou temas tropicais medianos. Mas neste álbum azul, havia algo diferente no lado B — uma energia que nos levou a desenvolver este projeto. A faixa “Baila con la Luna” tinha exatamente a alma regional que procurávamos: ritmos tropicais e um mambo excêntrico, com bateria marcante e uma melodia final no órgão, tocada ao estilo de Jackie Mittoo — um verdadeiro hino dedicado à lua do sul, que me inspirou a buscar mais sobre eles.
Nada se sabia sobre o grupo — se eram da região ou da América Central. Após meses de pesquisa, chegamos a um grupo chamado Indomable, onde hoje tocam parentes dos membros originais do Conjunto Luna Azul. Foi através do filho de um dos integrantes que descobrimos que eles eram de Tonalá, Chiapas. Fomos até lá para entrevistá-los e propor o projeto de lançar um single 7” com melodias regionais misturadas ao funk. Este projeto e a história das bandas resultam do resgate de duas melodias esquecidas de grupos chiapanecos que, nos anos 1970, conseguiram unir o calor tropical e a marimba com o groove do Latin funk.
Conjunto Luna Azul: dançando com a lua em Tonalá, Chiapas
Na costa sul do México, no município de Tonalá, Chiapas, surgiu em 1969 o Conjunto Luna Azul, liderado pela família Villanueva. Um dos grupos mais versáteis do estado, eles fundiram música tropical com funk mexicano. O Sr. Constantino Villanueva já havia liderado outro grupo, Estrellita de Oro, no qual seus filhos e membros da família Torres aprimoraram suas habilidades musicais. Após desentendimentos internos, Constantino fundou o Conjunto Luna Azul, uma pequena orquestra inicialmente formada apenas pelas famílias Villanueva e Torres, com três trompetes, três saxofones, baixo sexto, bateria e marimba.
Com o tempo, novos músicos se juntaram, e a marimba foi substituída por órgão em apresentações de música moderna. A formação incluía:
Félix Villanueva Cueto (sax alto), Javier Villanueva (2º sax tenor), Gildardo Villanueva (3º sax alto), José Merced Ruiz Ovando (sax barítono), Tito Villanueva (1º trompete), Jorge Villanueva (2º trompete), Juan Villanueva (3º trompete), Melito de la Torre (órgão), Adrián Mendoza (baixo sexto), Felipe Texas (requinto), Daniel de la Rosa (bateria) e René Torre de los Santos (baixo).
Faltava apenas um vocalista. O escolhido foi Eufemio Ruiz, do bairro Progreso, em Tonalá. Em 1975, a popularidade do grupo crescia rapidamente, tocando em festivais escolares e eventos regionais. Os shows começavam com música tropical e, em seguida, passavam ao que chamavam de música moderna — ou seja, funk orquestrado. Nessas apresentações, Romeo Grajales, vendedor local de discos, percebeu o talento do grupo e, por meio de Félix Villanueva, os convidou para gravar um álbum na Cidade do México, com todas as despesas pagas, pelo selo Zodiaco — pequeno, mas promissor nos anos 70, e que também lançou o grupo colombiano Siglo Cero.
O primeiro disco do Conjunto Luna Azul teve uma tiragem de 800 cópias, com repertório composto por versões de bumping solicitadas pela gravadora, como “Bumpin del Pato”, “Baile del Bump”, e uma releitura de “Rain Forest” da Bidu Orchestra. O disco vendeu muito bem na região. Tentei recentemente encontrá-lo em formato físico, mas só restam versões digitalizadas preservadas pelas famílias dos músicos.
Em 1977, com mais confiança, o grupo gravou “Baila con la Luna”, composta coletivamente. Os arranjos são atribuídos a Félix e Jorge Villanueva, este último reconhecido como um dos melhores trompetistas da região.
No fim dos anos 70, o grupo já era amplamente conhecido, viajando por Oaxaca, Istmo de Tehuantepec, San Mateo del Mar, Tierra Blanca, Unión de Hidalgo e até se apresentando na Guatemala. Entretanto, com o tempo, as contratações diminuíram, pois tecladistas solo passaram a ser mais baratos, o que desvalorizou o trabalho das orquestras. Aos poucos, o grupo se desfez — mas o legado permaneceu. Hoje, os descendentes dos Villanueva continuam tocando música tropical, mariachi e bolero, mantendo viva a chama da tradição musical de Chiapas.
Marimba Maderas Felices de Tapachula, Chiapas: além da música regional
A história deste grupo está ligada ao lendário maestro Danilo Gutiérrez García, de Villaflores, Chiapas, nascido em 1926. Nos anos 1950, Danilo integrou a Marimba Politécnico de Tuxtla Gutiérrez e depois a Perla de Tapachula, que se tornaria a famosa Marimba Perla del Soconusco.
Com experiência e conhecimento adquiridos ao lado de mestres da marimba, Danilo e seus músicos gravaram canções importantes, como “Casino de la Selva”. Após conflitos com o empresário do grupo, decidiram seguir carreira independente e fundaram a La Perla de Chiapas, que gravou para o selo Discos Musart e sua subsidiária Trébol.
Com a Musart, registraram medleys instrumentais e tropicais, além de versões marcantes, como “El Mexicano”, originalmente do duo chicano René & René, mas reimaginada com marimba e sabor chiapaneco.
Nos anos 70, já com renome nacional, o grupo gravou sob o pseudônimo Maderas Felices, por restrições contratuais com a Musart. Em 1977, lançaram o LP Solo Marimba pelo selo Globo, incluindo a faixa “Niña Bump”, composta por Jesús M. López e popularizada por Pérez Prado. A interpretação do Maderas Felices combinava marimba e bateria em perfeita sincronia, criando uma fusão irresistível de funk, mambo e ritmos tropicais.
Hoje, por meio de Eduardo Armento, representante da La Perla de Chiapas, essa canção e a breve história do grupo Maderas Felices permanecem registradas — testemunhos de um tempo em que o México tropical ousou ser funky.