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R$240,00
Transfusão Noise Records / IFB Records
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Descrição

Artista - Oruã

Título - Passe

Gravadora - Transfusão Noise Records / IFB Records

Ano - 2024

Formato - LP, vinil simples

 

O Rio de Janeiro, onde as montanhas se encontram dramaticamente com o mar, é marcado por contradições. É um clichê dizer que uma cidade é cheia de contradições, mas o Rio não é uma cidade qualquer. Muitos elementos vivem em oposição: a beleza do litoral contrastando com a decadência do centro; a riqueza dos vales e da orla em conflito com a pobreza das favelas nos morros e da periferia; a paisagem idílica de areia e mar colidindo com o concreto e os tijolos duros das ruas. A beleza do Rio muitas vezes funciona como um miragem, pois há muito em oposição — pobreza, injustiça e violência — frequentemente logo abaixo da superfície, borbulhando. É dessa cidade de contrastes que a banda Oruã surgiu no final de 2016. Um grupo construído não a partir da contradição, mas da improvisação, onde ideias inspiradas emergem à superfície.

É frequentemente nas margens do Rio que a criatividade flui com mais liberdade. Lê Almeida diz que a violência alimenta esse trabalho — em contraste com seu comportamento gentil, que não sugere alguém capaz de ferir uma mosca. Desde jovem, Lê viveu diversas situações em que a violência — testemunhada ou sofrida — foi usada como instrumento de poder e controle, como tem sido no Rio há séculos. A música do Oruã pode ser vista como uma reação ou resistência a essa violência, especialmente em um período particularmente turbulento da história do Brasil. O grupo trabalha a partir do Escritório, no bairro do Centro, em uma área “um tanto esquecida” da cidade. O espaço fica próximo ao Cemitério dos Pretos Novos, uma vala comum onde cerca de 30 mil corpos de pessoas escravizadas estão enterrados — uma memória brutal, literalmente sob a superfície, da longa e violenta história da escravidão no país.

É difícil identificar algo tradicionalmente “brasileiro” no som do Oruã, mas a banda vem de uma tradição secular de resistência. Vem dos povos indígenas do Brasil resistindo à expropriação de suas terras. Vem das diversas revoltas de pessoas escravizadas, que continuaram até a abolição da escravidão em 1888 — quando o Brasil foi o último país das Américas a fazê-lo. Vem dos quilombos, comunidades organizadas por pessoas escravizadas em fuga. Vem das tradições do Candomblé e da Umbanda, religiões sincréticas de origem africana com forte componente musical, que por séculos foram praticadas em segredo, com seus praticantes se declarando católicos para evitar perseguição. (O título do álbum Passe refere-se a uma prática da Umbanda na qual há troca de energia; também significa “passar”, no sentido de evitar ser detectado.)

O Oruã é herdeiro dessa história de resistência. Sua música é uma troca de energia com o público, mas também uma tentativa de “persuadi-lo de qualquer maneira”, como sugeriu Nina Simone, a desafiar os opressores. O Oruã encoraja seu público a se levantar: contra o racismo, contra a brutalidade, contra a opressão institucional. A rejeitar a violência; a buscar viver com liberdade, igualdade e coletividade.

— Jeff Caltabiano