Artista - Oruã
Título - Íngrime
Gravadora - Transfusão Noise Records / IFB Records
Ano - 2023
Formato - LP, vinil simples
Oruã nasceu no centro do Rio de Janeiro no fim de 2016, virando a esquina do golpe parlamentar que encerrou pra muita gente alguma crença na nossa democracia. Gravações em fitas cassetes velhas feitas na sala apertada do Escritório no meio da cidade renderam dois discos e um EP muito representativos da atmosfera que pairava no final da última década: “Sem Benção / Sem Crença” (2017), “Romã” (2019), e o EP “Tudo Posso” (2019) foram todos lançados no Brasil via Transfusão Noise Records e nos EUA via IFB Records.
Em 2018, ano de eleição e da greve dos caminhoneiros, o Oruã cruzou o país e atravessou fronteiras. Através de um número grande de cidades, capitais e do interior, a banda viajou para fora do Rio de Janeiro mais intensamente, para além do habitual eixo Rio-São Paulo. Pegando a BR-101 chegaram à Natal, cortaram a Bahia e depois, desceram, até ao Uruguai percorrendo também o sul do país. Nessa viagem de carro emprestado, “Romã” estava sendo gestado.
No ano seguinte, em 2019, Oruã fez a sua a primeira turnê pelos Estados Unidos e pela Europa, abrindo os shows do Built to Spill. Logo em seguida, ao mesmo tempo que Oruã saía do palco, dois terços da banda carioca, Lê Almeida e João Luiz, retornavam ao “stage” para compor a versão brasileira de Built to Spill junto com João Casaes (hoje, em 2021, Casaes integra a composição mais recente do Oruã).
Na sequência, em meados de 2019, faltando menos de um ano para o futuro decreto mundial da pandemia, sem nem sonhar com o isolamento social que aconteceria, Oruã entra em sua segunda turnê internacional, a primeira pela Europa, tocando em casas de shows como a O2 Forum, em Londres, e o Rockefeller Music Hall, em Oslo, emendando em seguida com uma segunda tour pelos EUA totalizando em aproximadamente 70 shows feitos até o meio daquele ano. No segundo semestre, Lê, João Luiz e J.C. seguiram o restante da turnê do Built to Spill pelos EUA tocando somente na banda norte-americana até o fim do ano.
Nesse período, o baterista Phill Fernandes deixava o Oruã. Karin Santa Rosa (que já tinha registrado duas grandes tours de carro do Oruã: uma para o Nordeste e outra para o Sul do país) passou a fazer parte da banda enquanto Lê, Casaes e João Luiz ainda estavam na estrada com o Built to Spill. Ela, que ainda não tocava de fato bateria, passou um tempo praticando para compor a versão mais recente do Oruã que contaria com duas baterias, como no início. Depois do fim da tour do BTS, de 2019, João Luiz também deixa o Oruã e volta para o Brasil. Lê e J.C. ficam em Boise (EUA) gravando o novo álbum do Built to Spill e, em paralelo, começam a desenvolver um novo Oruã.
“Comecei a gravar esse disco em 2019, ano em que minha vida deu uma sacudida gigante. Estava em uma enorme turnê tocando bateria com o Built to Spill, banda que passei uma boa parte da minha vida ouvindo muito e em nenhum tipo de sonho eu me imaginaria fazendo parte.
No meio da tour com o BTS eu fui juntando uma série de gravações, coisas que foram nos dando caminhos. Dessas faixas fomos arrumando a nova formação. Daniel Duarte que tinha tocado no primeiro disco retornou à banda que voltava a ter duas baterias. Bigú Medine passou a tocar o baixo e J.C. assumiu os synths, mpc e arranjos. A base do íngreme existiu antes de virmos morar em Búzios, mas foi morando numa região mais calma e verde que o diamante foi lapidado com carinho e dedicação. Esse foi primeiro disco que mixei num notebook. Os anteriores foram feitos em fita cassete.
Algumas bases foram gravadas nos EUA, como “Aluanda” e a primeira parte de “Cravina Flor”. A grande maioria foi gravada em Búzios, nas Emerências.
As letras em sua boa parte versam, refletem e propõem o pensar sobre algumas diferenças… sociais e raciais. Algumas com visão de perspectivas diferentes e um mundo melhor e outras mais brabas quase maldições ou preces, no geral é pro moral levantar.”
Como numa fotografia, as gravações do Oruã registram através do som e da letra, o momento. Como nenhum outro grupo musical brasileiro faz atualmente, transformam em potência, em obra rica, os obstáculos vividos. Também como numa fotografia, o registro sonoro possui seu recorte temático, não se encerra apenas naquilo que está emoldurado e, ainda, diz bastante sobre o ponto de vista (visão e origem, ao mesmo tempo) de quem cria. Se prestarem atenção, está tudo ali.
O retrato sonoro da caminhada íngreme vai se desdobrando em outras paisagens – mais verdes, percussivas e espirituais, enquanto desbravam pela primeira vez um estilo de vida diferente. Nada a ver com tranquilo, mas um estilo de vida de fato independente. Livre. Crescido nas adversidades, filho de uma década turbulenta, Oruã não teme. Em 2021, após cinco anos de atividade, depois de percorrer as mais variadas estradas, a banda não esquece do que e de como a caminhada foi feita ao mesmo tempo em que agradece. É, finalmente, o momento da colheita.