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Artista - Watt (Bill Orcutt; Tim Koffley)
Título - Recorded In Miami 1989-1991
Gravadora - Palilalia Records
Ano - 2023
Formato - material de arquivo / LP, vinil simples
Eu estava com Bill Orcutt no 9:30 Club há quase 30 anos, assistindo a uma famosa banda de pós-rock (que permanecerá sem nome, mas cujo nome continha duas vezes e meia mais artigos e conjunções do que substantivos), quando ele disse: “Essa banda é como a minha banda da faculdade — só acordes maiores com sétima e nona.”
Conto isso para enfatizar que, no caso de Bill Orcutt e do Harry Pussy, aquela gosma aparentemente destreinada de “Please Don’t Come Back From the Moon” e “Girl With Frog” nasceu de algo muito mais apolíneo do que normalmente se entende.
É discutível se o Watt — dupla formada por Orcutt e o baterista Tim Koffley presente em Recorded in Miami — é ou não a tal banda da época da faculdade mencionada acima. Watt não é exatamente resplandecente em acordes jazzísticos, mas certamente é mais estudado, oferecendo uma ligação mais elaborada entre o punk contemporâneo à la Johnny Thunders dos Trash Monkeys de Orcutt e o caos do Harry Pussy.
A continuidade com Harry Pussy vai além da coincidência temporal. Recorded in Miami marca o primeiro uso da guitarra de quatro cordas por Orcutt, e o Harry Pussy utilizaria o mesmo amplificador e a mesma bateria. A semelhança praticamente termina aí.
Para contextualizar ainda mais Recorded in Miami — gravado no Walkman de Orcutt, no estúdio de Rat Bastard em North Miami e no Natural Sound de South Miami (custo total: 289 dólares) — é preciso lembrar da fertilidade do underground musical na transição dos anos 1980 para os 1990.
É difícil explicar para quem não viveu aquilo, mas era um período em que o pós-hardcore ainda não tinha cedido espaço ao inchaço do grunge, quando o Minutemen ainda exercia mais influência momentânea do que o Led Zeppelin.
O mundo indie era governado por um monte de bandas de guitarras angulares e abrasivas como TFUL282, Trumans Water e, alguns anos antes, Phantom Tollbooth.
E, de certa forma (embora Orcutt jure que as principais influências do Watt eram James Blood Ulmer e o Massacre de Fred Frith), este disco parece muito moldado por aquele espírito de fim de década — como se estivesse a apenas um overdub vocal de ganhar um número de catálogo da Homestead Records.
Faixa após faixa (a maioria intitulada em homenagem a episódios da obra-prima televisiva slyly budista Gumby, de Art Clokey), as músicas de Recorded in Miami transbordam ângulos retos, clichês rockistas e estruturas de verso/refrão — do funk “Minutemenóide” de “Band Contest” aos maneirismos à la Thurston Moore e Lee Ranaldo em “The Young and the Decoding”.
Ainda assim, as corridas melódicas angulares de Orcutt atravessando o braço inteiro da guitarra ocupam o primeiro plano nessa última faixa, enquanto as duas músicas finais introduzem um pouco do caos explosivo que surgiria quando Adris Hoyos finalmente assumisse a bateria.
Considere “Wattstock”, em que Koffley estabelece a base para um longo delírio harmolódico instantaneamente composto por Orcutt. Ou “God Are You There, It’s Me, Watt”, em que ouvimos explosões vocais espontâneas — os únicos vocais do álbum — que reapareceriam nos primeiros discos solo de Orcutt.
O Watt começou a desmoronar quando Koffley, como bateristas costumam fazer, passou a desejar grades rítmicas cada vez mais complexas, enquanto Orcutt queria simplesmente “fumar mais maconha e improvisar”.
Por alguns discos com o Harry Pussy, Orcutt conseguiu seu desejo (embora parte do estruturalismo do Watt voltasse a aparecer em registros posteriores). Mas não devemos enxergar Recorded in Miami apenas como restos transitórios de juventude ou rock performático feito pelo simples prazer de conseguir executá-lo.
Na verdade, trata-se de uma peça inicial e fundamental do complexo quebra-cabeça musical de Orcutt. Uma fundação. E sem a terra sob nossos pés, como poderíamos alcançar o céu?” — Tom Carter
